O robô do rei de Bahrein

Matéria por  Ana Miranda
05 de Setembro de 2020 - 23:01
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Um homem em roupas árabes azuis vem por um corredor de uma feira de negócios. Ele é seguido por um robô titânico, com cabeça bamba, corpo parrudo, usando um colete de pano estampado. Ágil para seu peso, ao caminhar o robô gigante vai entoando ruídos metálicos e rangidos. Impressiona. Um pequeno público de homens em vestes árabes ou terno preto acompanha e filma a passagem das duas figuras.

A imagem sugere um brinquedo ou propaganda de filme, mas entra uma legenda: “O rei do Bahrein chega a Dubai com seu guarda-costas, um Robô gigante! Ele fala 6 idiomas. Pode resgatá-lo literalmente carregá-lo. Ele pode lutar fisicamente, perseguir, atirar. É armado com um teaser elétrico, um sistema de câmera de 360 graus (não divulgado) Secundário a um conjunto de câmeras infravermelhas, 3 metralhadoras ocultas com munição suficiente para lutar contra 1.050 homens e uma metralhadora atiradora guiada a laser. Ele também carrega os medicamentos e água. O robô guarda costas custou cerca de U$ $7,4 milhões!!”

Mesmo com erros de português e de sintaxe, oitocentas mil pessoas compartilharam o vídeo do desfile science fiction. O brinquedo virou arma. Quem montou a brincadeira foi um ex-jogador de críquete do Sri Lanka, chamado Roshan Abeysinghe, revelaram. Nada importa, a mensagem vem de encontro ao medo, à necessidade de segurança, à tendência para a fantasia e uma vontade secreta de ser enganado. Lembrei o episódio ocorrido em 1938, quando Orson Welles em seu programa de rádio fez uma adaptação do romance A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, narrando uma invasão de marcianos. A população entrou em pânico, muitas pessoas tentavam fugir de carro pelas rodovias, outras iam pedir à polícia máscara contra gases. O jovem radialista temeu que sua carreira tivesse terminado ali, mas estúdios de cinema o contrataram e ele fez o clássico filme Cidadão Kane.

O vídeo foi gravado em 2019 na Exposição Internacional de Defesa de Dubai, o robô era um espetáculo. Criado como protótipo para entretenimento, ele se chama Titan. É um misto de gente e máquina, dentro há uma pessoa que se move num sistema mecanizado. O assombroso robô já tem currículo de celebridade, participou da Fórmula 1 de 2018 em Abu Dhabi, claro que não como piloto, subiu ao palco num show de Rihanna para crianças em Los Angeles e em outro para adultos em Berlin, sem

a capinha e decorado com geometrias levemente indígenas. Dançou, fez carinhos na cantora. Um extraterrestre, um avatar, um Rude Boy. Ele é considerado, pela empresa que o fabricou, o futuro do entretenimento.

A robotização já começou desde os Tempos Modernos de Chaplin. Brinquedos infantis se robotizam. Armas de guerra se tornam robôs. A medicina se robotiza, cirurgias são feitas pelos robôs. Robôs fazem trabalhos de alto risco como desmontar bombas ou operações em altos fornos na siderurgia. O comércio já utiliza as vending machines. Existem no mundo mais de oitocentos mil robôs operando dia e noite no lugar de uns dois milhões de trabalhadores. Esperamos que esse fascínio pelos robôs não anuncie que, celular na mão, estamos nos tornando zumbis com controle remoto. A palavra robô vem do eslavo robota, que significa escravo. 



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