Maravilhas do Pantanal

Matéria por  Ana Miranda
27 de Setembro de 2020 - 00:01
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Os incêndios no Pantanal me deram vontade de reler os poemas de Manoel de Barros, o poeta do Pantanal e de todos os seres dos menores mundos que formam o mundo ermo das pequenas coisas infinitas do chão. Poemas reconstroem o que foi destruído. Naqueles versos de beleza e poesia inconcebíveis se aprende a amar lesmas, sapos, folhas secas, minhocas, lambarizinhos, vespas, formigas, urubus, socós, tatus, quero-queros, mais raros de serem amados que as místicas onças e os elegantes lobos-guarás, que os jacarés com seu maravilhoso couro de sapato e lágrimas falsas, dizem. Mais difícil é saber amar o mais secreto. O que não se conhece. Olhar é um milagre de amor.

E o pantanal é todo feito de milagres. Tem desde o mandacaru até orquídeas. Árvores com sono até sapos vestidos. Precisamos, para conhecer o Pantanal, ou ler os poemas de Manoel de Barros ou passar mil e tantas horas no lombo das águas, em silêncio, olhando firmemente cada pedaço, sem um guia. Passei por ali, com um escritor que estava compondo seu romance no Trem da Morte, em Corumbá, e na Bolívia. Naqueles dias o fogo só ardia nas flores dos flamboyants, nos nossos jovens corações e no chão calcinado de sol.

O Pantanal são milagres. Munduvi, carandá, buriti. Garças, tuiuiús, sucuris... Seus bichos e suas plantas vieram muitos da Amazônia, do Chaco, do Cerrado e da Mata Atlântica, além de suas próprias criações vegetais e animais. Ali há mais peixes do que em todos os rios da Europa juntos. Só perde em variedade para a Amazônia, mas é bem menor. Umas quase mil espécies de aves, umas quase cem de mamíferos, umas centenas de tipos de peixes, uns tantos répteis... colhereiros, socós, saracuras, capivaras, cervos, ariranhas, macacos, peixe dourado, piraputanga, piauçu, jacaré, beija-florzinho que pesa dois gramas, mosquito, cada um desses nomes é um mundo, uma evocação à criação divina, uma beleza única, um manual de vida, uma compreensão do planeta.

Quase tudo é brejo, quase tudo é alagado, chove muito, mas este ano deu uma seca brava. O aventureiro espanhol que me fascina, Cabeza de Vaca, passou por ali no século 16. Estepe, savana, mar interior, cerrados, cerradões, lagoas de água doce ou salobra, rios, vazantes, corixos, Cabeza de Vaca deve ter penado nas águas, como Langsdorff penou ao atravessar o Pantanal, no século 19, na estação das chuvas, prisioneiro nas canoas. Tudo era água. Agora, tudo é fogo.

As nove maravilhas do pantanal são: o rugido das onças no silêncio; um passeio noturno numa chalana ouvindo Almir Sater pelos rios a olhar o brilho nos olhos dos jacarés; o voo de um bando de araras-azuis; o pôr do sol na praia de Daveron; as flores aquáticas; cavalgar nas águas; as modas de viola. A oitava e a nona são os poemas de Manoel de Barros e a voz do pantanal escrita nas estrelas, Tetê Espíndola.

O Pantanal é riqueza de verdade. Patrimônio, tesouro, lastro. Se tivermos o Pantanal, a Amazônia, a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga preservados, seremos daqui a uns anos o país mais rico do mundo, o mais importante, com nossas fábricas naturais de ar e água pura. Música, poesia, arte, são riqueza de verdade. Riqueza é aquilo que nos faz felizes, que nos faz viver.



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