Mundo em chamas
“Isto é consequência”, diz uma moça que mora em São Francisco, Califórnia. Há uma semana ela pena com os incêndios, o dia amanhece às cinco da tarde, é difícil respirar, o céu vermelho com nuvens de fumaça tem um peso opressivo, parece um planeta hostil, uma chuva de fuligem e cinzas cai sobre a cidade, sobre seus cabelos, a moça não pode sair de casa, nem abrir a janela, o calor é infernal. E os incêndios ficam a mais de uma hora de distância da cidade. Meus netos na Califórnia suam, faz um calor de 45 graus, respiram um ar nocivo, aqui fico sem ar.
Califórnia, Oregon, Washington... Milhões de pessoas estão sem energia. Milhares de casas foram incineradas. Pessoas morreram, desapareceram. Helicópteros resgatam gente acossada pelas labaredas. O deserto de Mojave bateu 54,5 graus centígrados, temperatura jamais registrada. No Ártico, florestas da Rússia, Noruega, Alasca e Groenlândia queimaram nos últimos seis meses. Os pântanos da Argentina têm mais incêndios. A Amazônia queima ainda mais. No Cerrado as chamas se alastram. O Pantanal arde em chamas, mesmo o antes intocado Encontro das Águas, que era refúgio dos animais silvestres. O santuário das belíssimas araras azuis está sendo destruído pelo fogo, onças pintadas aparecem mortas, ou com as patas queimadas, vejo fotos terríveis, macacos, garças, tatus incinerados, asfixiados.
Os indígenas da Baía dos Guató estão ameaçados, quase todo o território dos Bororo foi queimado, as crianças saíram correndo, assustadas, o fogo atravessou o rio, os municípios de Poconé e Barão do Melgaço tiveram milhares de hectares incendiados. Grande área ardeu às margens do rio Três Irmãos, no Mato Grosso. Veterinários, biólogos e guias vão em picapes pela Transpantaneira, tentando salvar animais. Uma anta morre no colo da guia. Umas centenas de voluntários e servidores tentam conter o fogo, com mangueiras d’água ou com as próprias mãos, completamente ao deus-dará. Por todo lado há falta de bombeiros, água, equipamentos. Jacarés, cervos, antas, tamanduás, tuiuiús, vemos fotos dos animais mortos, choramos, dói demais, porém, nossas lágrimas não apagam incêndios.
Mais de cem mil focos de fogo atingem a flora e a fauna do Brasil. A Amazônia tem quase metade dos incêndios. Muitos são criminosos, talvez todos sejam. Desmatamento e queimadas para fazer pastos criam incêndios. É alarmante o avanço do fogo, os incêndios se agravam ano após ano e conhecemos as causas. As imagens
aéreas são de cortar o coração: um rendado vermelho por quase todo o nosso território. Tudo isso joga no ar gigatoneladas de carbono. Furacões são mais potentes nos Estados Unidos do Atlântico e no Golfo do México. Tempestades tropicais desabam mais fortes, a intensidade dos raios aumenta. Essas catástrofes não são naturais, elas nascem da destruição do clima. A natureza está avisando. Tudo parece ter uma ligação: pandemia, incêndios, furacões...
A floresta, os rios e os animais são sagrados, diz Sonia Guajajara. “É o egoísmo humano”, diz a moça, desolada, sufocada, em São Francisco. Estamos de luto. Luto por todos os seres vivos queimados nos incêndios do Pantanal, da Amazônia, do Cerrado, em nome da ganância e da ignorância humanas.