As sobrancelhas de Biden
Andam falando mal do Joe Biden, depois do debate para o próximo presidente dos Estados Unidos. Disseram que ele não tem liderança, não tem carisma, que é velho demais, até que ele não tem sobrancelhas. A questão é que ele não sabe fazer espetáculo, é um sujeito recatado, e pelo menos na América do Norte e no Brasil a política anda cada vez mais vazia, as pessoas preferem o mais bravateiro, vota nas estrelas da internet, nos fazedores de frases de impacto. Os que estão no poder são os que fizeram mais espetáculo e manipularam com menos honestidade.
O presidente Trump foi eleito sem a maioria, em um sistema eleitoral complicado, mas deu asas a um bando de ideias violentas, egoístas, gananciosas, preconceituosas, o superficial e o medíocre promovendo grandes passos para trás na luta pela fraternidade, pelo bem-estar, pelo cuidado para com o nosso planeta. Se é difícil entender por que os democratas escolheram um homem tão pálido e de fala meio emperrada, a resposta é que ele tem maioria de votos e da estima. Durante anos Biden atuou discretamente, criando fortes laços até com republicanos, com generais; é admirado, sobretudo por Obama. É um homem das relações humanas que pode restaurar algo perdido no mundo.
As sobrancelhas de Biden não importam. Biden tem um filho herói de guerra e uma comovente história de família que suaviza sua maneira. Ele tem doçura, mesmo vivendo num ringue de cachorros bravos, e treinado para ser mais agressivo. Dizem que antes dos debates os candidatos passam dias altercando com feras especialistas em perguntas difíceis, esgotam os temas espinhosos, decoram dados, aprendem a quando sorrir e olhar a câmera, como atacar e se defender a fim de vencer o debate. Os democratas venceram. Biden pode quebrar o elefante de plástico. E se as coisas mudarem por lá, talvez mudem por aqui.
Trump perdeu as estribeiras e não teve nenhum pudor de mentir deslavadamente. As mídias têm especialistas em checar dados e num instante revelam as mentiras, mas os governantes de hoje na América e no Brasil dizem cinicamente que vão repetir suas mentiras tantas vezes até que elas se tornem verdades. Mentiras como as mamadeiras fálicas e que quem está incendiando a Amazônia é o Leonardo de Caprio. E os índios. Não entendo mais o mundo.
Algumas pessoas entendem, e uma delas é o jovem Antonio Prata, uma das nossas mais brilhantes vozes críticas. Foi ele quem falou mal das sobrancelhas do Biden. Mas, ele faz uma pergunta interessante: “Por que o planeta pariu numa década tantos Bolsonaros, Trumps, Maduros, ... e tão poucos do outro lado, pra balancear?” Lembrei os novos nomes de líderes que estão surgindo com força, como Jacinta Ardern na Nova Zelândia, Erna Soldberg na Noruega, Mette Frederiksen na Dinamarca, Angela Merkel na Alemanha, Michelle Bachelet no Chile, Tsai Ing-wen em Taiwan... Parece que a candidatura de Biden, na verdade, é a preparação para a candidatura de sua vice, a senadora Kamala Harris, que tem sobrancelhas grossas e pretas, olhos cintilantes e a voz ágil e agressiva de uma procuradora pública criminalista. Meu amigo holandês, o Theo, anda dizendo, aqui, que são as mulheres e as crianças que vão salvar o mundo.