Amar os rios
Vozes ecoam por amor a nossas árvores e florestas, o mundo inteiro defende a Amazônia, lutamos por nossos mangues, oceanos, dunas, animais em extinção, por nossos índios que sofrem, mas pouco falamos de nossos rios. Além dos caudalosos e maravilhosos cursos d’água, como o Amazonas, o São Francisco, ou nosso belíssimo Jaguaribe, temos um enorme número de rios que foram e estão sendo sufocados por cidades. Conheço uma educadora, Silvana Gontijo, que se dedica ao cuidado com os rios. Ela toca um projeto chamado Esse Rio é Meu.
Fala direto com o futuro: as crianças e os jovens nas escolas. Eles são levados a olhar, entender um rio que corre perto da escola. Passam a se sentir parte do lugar, pelo conhecimento do rio, de sua história; aprendem onde ele nasce, seu caminho, sua flora, as transformações que causa no percurso, os danos que sofre, onde fica sua foz, entoam cantigas... Silvana me disse que o rio Carioca, o mais carioca de todos os rios no Rio de Janeiro, foi o primeiro curso d’água urbano tombado, na história. Tombar os rios é uma bela ideia. Isso me faz lembrar o nosso riacho Pajeú.
Pajeú significa o rio curandeiro, o rio do pajé. Calculam que esse rio tem uns sete mil anos. O forte Schonnenborch dos holandeses foi construído, no século 17, à sua margem esquerda e o chamavam de Marajaik, riacho das palmeiras. Um riacho límpido, sinuoso, que cortava ainda no século 19 toda a cidade da Fortaleza, acompanhado de quintais das casas enfileirados, árvores frondosas de sapoti, cajarana, azeitonas roxas, cajueiros, e uma rua também sinuosa. Era a alma da cidade, uma alma pura, fresca, reconfortante. Abastecia as casas todas e o comércio. Ali, lavadeiras nuas lavavam roupas e as estendiam nos arbustos, moradores se banhavam, crianças nadavam, riam. Nos anos 1960 um amigo meu brincava nas águas do Pajeú. Hoje, pobre do nosso riacho, ainda corta a cidade desde a rua Silva Paulet até o Poço da Draga, mas está maltratado, tristonho, sujo, sombrio, sem refletir o céu, uma grande parte canalizada em galerias subterrâneas. Com toda razão, de vez em quando ele se revolta em enchentes. Os rios não se conformam. Rios falam, tornam-se lágrimas.
Aqui ao lado de onde moro temos outro rio triste, o Maceió, que em seu percurso recebe detritos ruins da cidade, e não consegue desaguar no oceano, prisioneiro atrás da avenida Beira Mar, de uma pracinha. Temos outros rios
fundamentais para Fortaleza que precisam de cuidados: o Ceará, o Maranguapinho, o Pacoti que nos dá uma das mais belas paisagens, e o Coassu. O rio Cocó ainda tem saúde, matas, passarinhos, mas sofre com a presença dos humanos.
Precisamos dos rios, nós, pessoas e os animais, as plantas. Os rios nos dão a abençoada água para beber, cozinhar, lavar, plantar, navegar... Podemos nadar, pescar, passear nos rios... A água doce move nosso organismo, limpa nosso corpo, nos refresca e alimenta. Não temos dignidade, sem água. Não temos vida, sem os rios. Quase toda a água do planeta é salgada, pouca é a água doce. Rios são seres fabulosos. São eles que enchem nossos açudes, caixas d’água, filtros, são eles que caem nos nossos chuveiros, fervem o feijão. Precisamos amar e cuidar de nossos rios.
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