Leituras dramáticas: o casamento da literatura com as artes cênicas
Ver a interpretação dar forma e cor aos conteúdos que costumavam morar em páginas é uma grata a surpresa
Vivo rodeada por livros. Minha casa, desde que conheço, é feito biblioteca, com muitas e diversas opções de leitura. A culpa boa vai pra conta da minha mãe, jornalista, assim como eu, e amante exagerada das letras. Com tanto estímulo, tenho feito, há algum tempo, um caminho múltiplo e curioso na direção desses universos publicados. Esta época nossa, de impossibilidades tantas e distanciamento do exterior, tem sido catalisadora de encontros grandes, como os que andei tendo com Clarice Lispector, Buchi Emecheta, Francisco Faus, Clarissa Pinkola Estés e Santa Teresinha do Menino Jesus. Tudo graças aos mundos que cabem entre a capa e contracapa.
Faço este breve resumo de uma história de aproximação contínua do universo literário, que tem me levado da Nigéria Colonial ao mergulho na psique feminina, passando pela espiritualidade e pela genialidade do trivial, para comentar aqui a grata surpresa que vem se dando em parcelas, dia a dia, nas andanças feitas em uma outra realidade: a virtual.
É que a literatura casou com as artes cênicas. Não foi ninguém que me falou, eu vi. Os frutos dessa união tenho acompanhado entusiasmada. Vêm em forma de leitura dramática, o que tem feito minha cabeça nesta temporada caótica e, pela frequência com que esbarro em diferentes exemplares espalhados pela web, têm encantado muito mais gente por aí.
É bonito de ver. Na rede social, entre fotos do pôr do sol, feitas da janela, e registros domésticos cotidianos: lá estão eles, os vídeos que dão cor, ritmo e forma às palavras. As leituras com vida. A literatura falada. São sinais de fumaça buscando comunicação com o lado de fora.
Ah, é uma viagem! Que pode ser conduzida, por exemplo, pelo tom grave e cheio de charme de Elisa Lucinda, que, em sua polivalência artística, canta, conta e declama. Em publicação recente, feita no Instagram, compartilhou, de maneira visceral, em meio a um vídeo preciso e urgentemente necessário, alguns versos de Cecília Meireles: “A tua raça quer partir, guerrear, sofrer, vencer, voltar. A minha, não quer ir nem vir. A minha raça quer passar”.
Escrevo ouvindo a voz dela, como se as palavras ali postas tivessem vindo ao mundo para serem ditas exatamente como ela as disse. A destreza no fazer é tanta que a atriz, escritora, jornalista e cantora dá até curso de poesia falada.
Mais alguns toques e o guia da travessia literária muda, vira outro. Conhecido, desde sempre, por ser devorador ávido dos livros, Antônio Fagundes traz uma interpretação para “a pedra no meio do caminho”, de Drummond, que reinaugura o conceito de ineditismo. A equação é a seguinte: quase todo mundo conhece a poesia, mas ninguém jamais a ouviu ou a interpretou daquela maneira. É tocante. Traz ele pra perto.
Fala coral
E quando muita gente quer embarcar junta, o desejo pela palavra contada vira projeto coletivo. É o caso do “Cara Palavra”, que, com um time de gigantes - como Andréia Horta, Bianca Comparato, Débora Falabella e Mariana Ximenes - nasceu no fim de abril. O vídeo de estreia traz pouco mais de dois minutos de texto. O fragmento é retirado do livro “A Peste”, de Alberto Camus - título de 1947 que voltou a figurar entre os mais procurados nestes tempos pandêmicos.
(Pausa para observação rápida: como é curioso o comportamento das pessoas. Em meio a esse mar de dúvidas e tristeza trazido pela Covid-19, as obras sobre epidemias, pestes e afins estão em alta em múltiplas plataformas. Sempre fico um pouco assustada com isso. Mas voltemos ao vídeo de estreia do “Cara Palavra”.)
A publicação do primeiro exemplar da série em construção já apontava para o que viria pela frente: reflexões sobre o período em curso, inédito para toda uma geração. Com trilha e edição profissionais - e primorosas -, isso sem falar nas interpretações marcantes, as atrizes transformam da bula de medicamento ao discurso político em cena. O humor, a sátira e o drama estão ali, unidos pela costura da arte.
Mais perto de nós
Ainda sobre esse processo de interpretação coletiva, gostaria de salientar algo: mesmo que a internet dê a impressão de que tudo mora à distância de um clique, tenho especial prazer em ver na tela o que, há pouco, estava logo ali, num palco próximo a mim. É por isso que não poderia deixar de integrar essa lista-reflexão o projeto #LeiturasInsurgentes, que se materializou a partir da vontade da atriz e produtora cultural fortalezense, Gabi Gomes, de compartilhar obras de autoras e autores negros/não-brancos.
A obra seriada surgiu recentemente e, na interpretação do texto “Ainda assim eu me levanto”, de Maya Angelou, foi responsável por transformar meu olhar sobre esses escritos tão potentes, que já conhecia, mas não desse modo. Trata-se de frases que poderiam ter sido construídas juntas como lema encomendado para os tempos graves que vivemos.
“Em uma madrugada maravilhosamente límpida, eu me levanto. Trazendo no peito os dons que meus ancestrais me deram, eu sou o sonho e as esperanças dos escravizados. Eu me levanto”, diz um dos trechos do texto. No final do vídeo, pode-se conferir o discurso na voz da Maya Angelou, com a moldura da verdade de quem o fez brotar.
Possibilitar-se dar outro tom e outro tempo às navegações virtuais traz dessas pérolas. E, neste relato, sugiro, residem apenas algumas de tantas iniciativas realizadas no intuito de fazer as letras saltarem do papel. Uma bela viagem. Gratuita. Não por não custar nada, mas por ser imprecificável.
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