Do fechamento de livrarias à abertura de drogarias: para onde vai o comércio de rua?

No início do século XX, os destaques eram as galerias francesas; nos anos 1970, o modelo de shopping americano se difundiu; e, hoje, o e-commerce aparece como fronteira

Matéria por  Alexandre Queiroz Pereira
16 de Outubro de 2023 - 14:00
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Se o século XX ratificou a cidade como espaço das atividades terciárias (comércio e serviços), de lá para cá, muita água passou por debaixo da urbanização. Transcorrido o tempo, as novas formas de consumo e as tecnológicas a elas associadas têm alta capacidade de transformar o espaço urbano. No início de XX, os destaques eram as galerias francesas; nos anos 1970, o modelo de shopping americano se difundiu; e, hoje, o e-commerce aparece como fronteira.

Para o padrão de cidade que herdamos, o comércio de rua é tão vital para a urbanidade quanto à ocupação dos espaços públicos. Acontece que a forma anterior de produzir espaços comerciais na cidade anda em crise. E isso não se explica somente pelos momentos difíceis da economia nacional e mundial, mas também por comportamentos e tendências do consumo de massa ou de sua estratificação.

Mas desvendar a cidade nunca é tarefa simples ou óbvia. Ao contrário, sempre é bom duvidar de explicações superficiais. Na mesma metrópole onde livrarias perdem lugar no comércio de rua, e uma a uma vão fechando, drogarias são construídas da noite para o dia por todos os lados. Já virou até meme nas redes sociais: “tenho medo de sair de casa e quando voltar uma farmácia estar no lugar!”, diz a voz acompanhada de imagens do antes e depois de esquinas ocupadas repentinamente pelo comércio de remédios e afins.

Como explicar essas mudanças? O que elas querem dizer? Não sei ao certo, mas hipóteses me vem à cabeça.

Primeiro é bom saber que as mudanças de tecnologias, como e-commerce, não atingem da mesma forma todos os subsetores. O comércio de pequenos itens e de comida é muito mais assimilável pela lógica das entregas em domicílio. Empresas comerciais pequenas abandonam os estabelecimentos abertos ao público para organizarem-se nas residências de seus proprietários, trabalhando diretamente com delivery.

Fato complementar à explicação é o tamanho dos players empresariais envolvidos em cada estratificação comercial. Quando uma grande empresa, nacional ou multinacional, com incrível capacidade de capitalização e capilaridade entra no nicho, as pequenas lojas de rua ou de bairro enfrentam concorrência desproporcional. É o que vem acontecendo com as livrarias físicas. Por um lado, as pesquisas demonstram que o brasileiro do presente, em média, lê mais do que o do passado, consome mais livros e as feiras de livro estão sempre lotadas. Por outro lado, as pequenas e charmosas livrarias padecem frente às gigantes do comércio “on line” e pela difusão do consumo de livros digitais.

A mudança é inevitável, porém seus efeitos devem ser pensados. Uma cidade que perde livrarias e ganha drogarias, desculpem o trocadilho, anda doente. Às vezes fico a pensar se realmente se vende tanto medicamento ou se a instalação de estabelecimentos comerciais desta natureza não seria um processo de captura de lotes estratégicos, uma antecipação espacial com propósitos imobiliários futuros. Deixa pra lá, discutiremos esse assunto em momento oportuno.

Na dialética das permanências e mudanças, acredito que os serviços tendem a resistir mais nas ruas do que os comércios. Se a mercadoria pode se deslocar facilmente, serviços específicos não, pois dependem de ambientes controlados e de equipamentos específicos dificilmente móveis. Neste sentido e a título de exemplo, nos serviços dedicados ao lazer e à diversão, sair de casa e ver novas pessoas é o fator atrativo. Assim, uma boa solução para o fortalecimento do terciário de rua são os serviços culturais, por exemplo. Já pensou, espalhados pelos bairros bares, cafés, teatros, livrarias, galerias e tudo mais?! Que tal?!

De uma coisa tenho certeza, a cidade precisa de gente nas ruas, assim como, de segurança, de emprego e de dinâmica econômica. Tais necessidades não são desconexas. Elas são parte da mesma engrenagem, do mesmo todo. A saída está nos pequenos empreendedores e não nos grandes magazines. O desafio é enorme. A decadência do terciário de bairro e de rua é a antessala do fim da cidade para as pessoas, pois é mais um passo para o aquartelamento da vida urbana. 



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