A desigual distribuição das altas temperaturas na cidade de Fortaleza

Antes pensados como peça de ficção científica ou percepções catastrofistas, os resultados do aumento médio da temperatura mundial vem causando transformações rápidas e danosas à vida humana no planeta

Matéria por  Alexandre Queiroz Pereira
21 de Dezembro de 2023 - 07:00
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Os efeitos das mudanças climáticas já estão no nosso cotidiano. Antes pensados como peça de ficção científica ou percepções catastrofistas, os resultados do aumento médio da temperatura mundial vêm causando transformações rápidas e danosas à vida humana no planeta. No Brasil, já sentimos com mais intensidade inundações, deslizamentos e a repetição de ondas de calor, mortes são registradas, além de volumosos prejuízos às infraestruturas urbanas e residenciais.

Nas cidades, ambientes amplamente modificados pela ação social, os efeitos das alterações no clima não são menos severos. É possível, inclusive, verificar que há espaços urbanos que sofrem muito mais do que outros, mesmo falando da mesma cidade, sobretudo em áreas mais vulneráveis socioeconomicamente.

As pesquisas científicas avançam nesse tema e nos trazem conhecimentos estratégicos para a convivência e, principalmente, para a correção dos princípios que têm norteado a economia e a produção do espaço urbano.

A esse respeito, tivemos acesso a uma fração dos resultados do projeto “Infraestrutura verde em cidades tropicais para redução do stress térmico e adaptação às alterações climáticas, o exemplo de Fortaleza, Ceará”, coordenado no Ceará pela Professora Maria Elisa Zanella e pelo doutor Antônio Ferreira Júnior, ambos vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará.

Ao desenvolver sua tese intitulada “Clima urbano: análise do campo térmico e sugestão de áreas prioritárias para implementação de medidas mitigadoras”, Antonio Junior produziu um rico banco de dados, uma sólida cartografia temática urbana e chegou a conclusões relevantes, dentre elas estão:

É possível, inclusive, verificar que há espaços urbanos que sofrem muito mais do que outros, mesmo falando da mesma cidade, sobretudo em áreas mais vulneráveis socioeconomicamente
Legenda: É possível, inclusive, verificar que há espaços urbanos que sofrem muito mais do que outros, mesmo falando da mesma cidade, sobretudo em áreas mais vulneráveis socioeconomicamente
Foto: Kid Júnior

  • 1.  Entre o final da década de 1980 e início dos anos 1990, verificou-se significativa alteração na condição térmica de Fortaleza, principalmente em consequência da expansão e adensamento da estrutura urbana da cidade.
  • 2. Os dados mapeados indicam que as Regionais Administrativas 1 (Barra do Ceará), 3 (São Gerardo), 4 (Fátima), 11 (Conjunto Ceará) e 12 (Centro), apresentam maior representatividade de formas e condições que contribuem para o aumento da carga térmica, favorecendo as condições de elevação do calor e de suas consequências para a sociedade, também denominado de estresse térmico.
  • 3. Percebeu-se que a periferia da cidade apresenta os maiores valores de temperatura do ar (registrados durante o dia), em virtude da configuração urbana inadequada, da alta densidade horizontal de edificações e da presença escassa de estruturas verdes significativas.
  • 4. Por outro lado, identificou-se o papel da verticalização para o armazenamento do calor a nível local, tendo em vista que os pontos de coleta nas áreas verticalizadas apresentaram as maiores temperaturas noturnas.
  • 5. Positivamente, constatou-se que o Parque do Cocó se configura como uma importante Ilha do Frescor na cidade de Fortaleza. Contudo, a pesquisa apresentou um dado alarmante em relação às desigualdades de acesso às condições de temperatura. Em determinados momentos do dia, no período seco, as temperaturas registradas no Parque foram até 6°C mais amenas que o ponto mais quente registrado, localizado no Bairro Álvaro Weyne.

Em termos gerais, a maior intensidade térmica é observada às 13h, onde, segundo a pesquisa, a temperatura média horária, na periferia, pode chegar a ser 4°C maior que no Parque do Cocó. Aqui estamos falando não só de desigualdade social, mais do que isso. As famílias nesses bairros periféricos vivem em condições de temperatura a produzir graves consequências na saúde física e mental.

Por fim, o estudo aponta para os bairros prioritários à ações que mitiguem as desigualdades térmicas. São eles os bairros Álvaro Weyne, Jacarecanga, Carlito Pamplona, Cristo Redentor, Pirambu, Floresta e Centro.

Para a elaboração desses regramentos urbanos, além das condições econômicas e sociais, a dimensão ambiental-climática carece de maior atenção. Sabendo-se do momento de revisão do Plano Diretor da cidade de Fortaleza, as conclusões permitem melhor qualificar os parâmetros dos zoneamentos e do uso e ocupação do solo. Em complementação, tais áreas deveriam ser incluídas como prioridade zero nas políticas de criação de áreas verdes, de cuidado com os recursos hídricos, de arborização e, quando necessário, de reassentamento de famílias residentes em condições insalubres. 



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