Quando não é possível dar o que o outro nos pede

Nas relações, tensões sobre desejos e impossibilidades estarão em jogo o tempo todo

Escrito por Alessandra Silva Xavier ceara@svm.com.br
24 de Fevereiro de 2025 - 09:45
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As relações são campo de enigmas, ilusões, fantasias,  desejos, alegrias, pertença e, muitas vezes, desencontros. O outro pode ser o depositário de inúmeras expectativas: daquilo que não conseguimos, daquilo que nos falta, daquilo que perdemos, daquilo que achamos que somos e ansiamos confirmação, daquilo que dói e procuramos apaziguar, daquilo que não compreendemos e desejamos que o outro nos ajude a entender; daquilo que nos magoou e desejamos que o outro repare; daquilo que não atingimos e desejamos que o outro nos eleve até alcançar; daquilo que temos medo e desejamos que o outro nos proteja, daquilo que temos fome e desejamos que o outro sacie; daquilo que adoecemos e paramos de desejar e esperamos que o outro  nos vitalize ou cure; daquilo que o olhar esvaziou e desejamos que o outro reaqueça o brilho; daquilo que nos falta palavras e desejamos que o outro nos apresente o texto, dicionário e gramática. 

Nas relações, tensões sobre desejos e impossibilidades estarão em jogo o tempo todo. Muitas vezes, separados por um abismo impossível de tecer pontes. Frequentemente, será impossível dar o que o outro deseja simplesmente porque o que o outro deseja não é capaz de ser satisfeito.

Outras vezes, porque o limite do que consigo dar pode não ser suficiente,  porque o que o outro quer me violenta, me invade; porque se eu desse, me perderia de mim. Outras vezes, por não ter o que dar daquilo que o outro espera, até porque a mim também falta; outras vezes, porque não aprendi a manejar o afeto que o outro deseja, e não sei servir nem partilhar o bom que há em mim, até porque muitas vezes pode ser desconhecido e assustador.

Às vezes, posso não ter condições pelo cansaço, pela própria dor, pela necessidade de receber, e não ter condições de oferecer nada a ninguém.

Podem existir momentos em que estar consigo já é tão imenso e complexo que não é possível caber mais nenhuma demanda. Existem momentos em que só é possível o silêncio. Existem momentos que é preciso aceitar que o outro é o outro. E que ao não ser capaz de oferecer o que o outro precisa, não significa desamor, falta de consideração ou afeto. Existem momentos em que o que se precisa é tão crítico que não receber pode significar ruptura do vínculo.

Quanto mais alguém possui condições de saber de si e quanto mais o outro se sabe também, mais o espaço da palavra pode ajudar a ajustar essas economias de desejos.

Quanto mais dependente, quanto mais fusionado, quanto mais à mercê do outro, mais o "não" pesa e o "sim" fica urgente. Mais preciso sugar e vorazmente ser preenchido com o outro que me dará pele e forma para o que em mim é vazio e angústia.

Algumas vezes, achamos que o outro irá nos preencher, completar, oferecer um sentido à vida; e nessa ilusão, oferecemos em sacrifício abrir mão de encontrar o próprio caminho e viramos depósito insaciável de demandas sobre o outro, reagindo com fúria e tristeza diante das frustrações.

Às vezes, o que não se pode oferecer é um limite do corpo; às vezes, é um limite da alma. Quando é possível encontrar o ritmo, a dança, a troca saudável, as frustrações, as impotências, os desejos, as poesias, as palavras, os gestos, as tolerâncias e compreensões com os limites, os encontros e convívios ficam possíveis.

Em outros momentos, haverá a constatação da ruptura, que coloca questões sobre o tamanho e possibilidades do desejo ou a escassez da disponibilidade do outro.

Será que ofereço demais e espero sempre retornos que nunca acontecem? Será que nunca espero nada? Será que me coloco onipotente? Será que sempre desejo o que o outro não pode dar para chancelar autossabotagens? Será que me diminuo? Será que percebo o que depositam sobre mim?

É impossível não desejar nada em uma relação. Muitas vezes, a ausência de expectativas é somente o réquiem de algo que acabou. Entretanto, as ilusões depositadas sobre os outros podem ser castelos de areia que me impedem de lidar com o que preciso enfrentar.

Posso transferir para que o outro me dê aquilo que não está no poder do outro e que deveria ser buscado por mim. E assim, me contentar com migalhas justificadas pela aceitação dos limites do outro. Mas aí cabe a pergunta: isso lhe basta?

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.



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