Atividade física e a desalienação do corpo

Escrito por Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
21 de Abril de 2025 - 07:22
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Os inúmeros benefícios da atividade física para o sistema circulatório, neurológico,  endócrino, para articulações, ossos, são amplamente conhecidos. Entretanto, além de todos os benefícios para o corpo, a atividade física auxilia no desenvolvimento da imagem corporal, na propriocepção, memória, atenção, uso do espaço, pensamento, aprendizagem,  na autoestima, no fortalecimento de vínculos na liga da relação mente e corpo.

Descobrir os limites, os contornos, as fronteiras, fazer amigos, explorar movimentos que ajudam a perceber-se no mundo, no espaço, é ampliar o sentir e o ser.

Quando nos movemos, quando cuidamos do corpo, mobilizamos todo o nosso existir para construir uma imagem integral de quem somos: braços, visão, perna, audição, pensamento, tudo começa a se interligar. Conseguir uma  integral visão de corpo é construir e fortalecer uma visão de si. Conhecer o próprio corpo, sentí-lo ,percebê-lo, desenvolver força, flexibilidade, amplitude, é ser capaz de se sentir agindo sobre o mundo.

A vida pede movimento. Não o que ataca os cuidados, que excede e adoece, que é aditivado,  que perde a espontaneidade, que gera lesão e violenta. A vida pede o movimento da atitude e da doçura. É preciso descobrir o próprio corpo, ter tempo para brincar com os movimentos, descobrir-se nos detalhes, perceber e respeitar a respiração, o entrelaçamento delicado de ideias e atos.

Atividade física pode auxiliar no estabelecimento de vínculos  e relações, na construção de grupos e de amizade, na experiência de permitir-se um lazer e na descoberta de potências e capacidade de superar desafios. Além disso é espaço lúdico, onde é possível permitir-se a espontaneidade do movimento, do gesto e da descoberta.

Cuidado com os excessos

Atividade física deve ser espaço de construção da sabedoria existencial com o corpo e não o uso perverso de si para a autodestruição
Legenda: Atividade física deve ser espaço de construção da sabedoria existencial com o corpo e não o uso perverso de si para a autodestruição
Foto: Shutterstock

Quantos territórios de nosso corpo ainda são desconhecidos? Quanto maltratamos  nosso corpo? Quão bem verdadeiramente cuidamos desse refúgio que nos habita e protege? É preciso desenvolver as atividades respeitando o desenvolvimento humano e as diferenças.

Padronizar corpos é limitar a expansão da alma, é cercear a multiplicidade de identidades. Sobre os corpos irão incidir violências, pressões, imperativos de consumo, discursos, dispositivos de controle e possibilidades de libertação, potências e rebeldias.

Trabalhar a potência do corpo é discutir questões relacionadas à sexualidade, às expectativas,  desejos construídos sobre o corpo, desenvolver e questionar  a relação íntimo e público, realizar projetos intersetoriais e comprometido com o SUS.          

Seria importante que, na prática educativa, a atividade física fosse vista enquanto campo que dialogasse com todos os saberes, que integrasse experiências sobre o cuidado consigo, com a saúde mental, reflexões sobre autoestima, patriarcado, racismo, consumo, estética e crítica aos padrões corporais que objetificam o sujeito. Que fortalecesse a experiência grupal e a dimensão do coletivo, que empoderasse a fala, o sentir e a atividade sobre o mundo. 

Encontrar o ritmo do próprio corpo é ato de liberdade existencial. Respeitar-se é fortalecer a saúde mental. As atividades em grupo permitem as trocas, o aprendizado coletivo, a empatia, o fazer junto, o perceber o tempo do outro, o lidar com regras, vivenciar alegrias, deparar-se com perdas e frustrações, aprender que conquistas envolvem processos coletivos, construir uma noção de si que integre os aspectos biológicos, psíquicos,  históricos e culturais, perceber e responsabilizar-se pelos desejos, relacionar-se com o meio ambiente e construir uma visão ética em busca de direitos e justiça social.

 Quantas histórias moram no escondido do corpo, quantos medos, quantas comparações, quantas angústias,  quantas palavras, quantas humilhações, quantas vergonhas, quantas dúvidas, quanta força, quanta resiliência, quanta arte, quanta dança, quanta poesia, quantas ideias, quantos amores, quanta fé, quantas perdas, quantas lágrimas, quanta pulsão, quanto sonho e esperança? Quantas comparações adoecedoras? Quanta alienação sobre si?

Que a atividade física auxilie a dizer não, a fazer escolhas, a compreender o tempo e que as exigências nem sempre serão possíveis e podem ser alienantes,  a respeitar a hora de avançar e o tempo de descansar, de incluir, que fortaleça a vida. Que seja espaço de construção da sabedoria existencial com o corpo e não o uso perverso de si para a autodestruição.



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