Adolescência e os desafios de tornar-se confortável em ser quem se é

São inúmeros desafios que disputam contínua e constantemente com demandas internas e externas

Escrito por Alessandra Silva Xavier producaodiario@svm.com.br
17 de Janeiro de 2025 - 07:47
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O corpo cresce, estica e puxa, tentando adequar a pele ao tempo. O tempo da vida largo, insondável. É momento de descoberta e construção. É projeto de vida que se desmonta em múltiplos desejos, identidade sexual, orientação sexual, escolha profissional, demandas escolares, grupo de amigos, reposicionamento junto à família. 

São inúmeros desafios que disputam contínua e constantemente com demandas internas e externas: quem me amará, quem amarei, e será que quem eu amar me amará? Darei certo na vida? O que é dar certo na vida? Quem eu sou? O que desejo? 

Meus amigos me apoiam, posso confiar, faço parte do grupo? Gosto do meu corpo? Gostam do meu corpo? Como irei habitar esse corpo que agora muda à revelia? Como me entender com ele? Muda a voz, mudam os cheiros, mudam as reações, cada dia aparece algo novo. 

Será que trabalharei em algo que gosto e serei capaz de sobreviver do meu trabalho? Serei capaz de sobreviver? Quais os sonhos que me cabem? Minha família me admira? Por que não levam à sério quando falo do que penso e das minhas emoções? 

Como me proteger de relacionamentos abusivos? Como lidar com o tempo? Como lidar com as intensidades? Como fazer com os desconfortos que surgem em mim e nem eu sei explicar o que se passa? Como lidar com os lutos pelo corpo infantil, pela idealização dos meus pais? Onde encontrar as respostas para tantas perguntas que tenho? 

Por que há tanta desigualdade e injustiça no mundo? Como entender as pessoas de outras gerações? Como mudar o mundo? Receberei “curtidas”, serei interessante? Isso é verdade? Em quê ou quem acreditar? Qual minha religião? Tenho religião? Como lidar com a raiva, a dor, o medo? Como descobrir em quê sou bom? 

Como encontrar saídas para os problemas complexos da existência? Como se faz diante da dor da rejeição? O que é o amor? Como se sabe que é aquela pessoa a namorar? Qual minha identidade de gênero? E a identidade sexual? Como integrar esses caminhos da sexualidade que me percorre em tantas nuances? Será que poderei andar pela cidade ou serei morto? 

Posso confiar nos adultos ou desejam me explorar? Posso pedir ajuda ou irão me considerar fracassado? Posso dizer o que penso ou rirão de mim? E se meus pais morrerem? Por que meus pais me abandonaram? Deus existe, como é ser Deus? Qual o mundo que me cabe?

Adolescência envolve construir um lugar no mundo, um lugar psíquico, um lugar social, uma produção de identidade. Alicerçada no momento histórico, a adolescência é plural. O jeito de ser adolescente varia de acordo com o território, com a raça, com o gênero, com a classe social. São múltiplas adolescências em um bombardeio de hormônios, desejos, afetos e ideias. Neste contexto que envolve a construção de um lugar psíquico e social, diversos agentes precisam auxiliar neste percurso. 

É fundamental a presença da família que acolha, proteja, dialogue, compreenda, que perceba as demandas e auxilie na leitura do mundo, seus limites, regras de convívio e que apoie o sonho, a esperança e a capacidade de amar. 

A escola precisa desenvolver projetos que auxiliem na capacidade de lidar com a vida, com a agressividade, o medo, com as perdas, para ser capaz de elaborar o vivido, de se relacionar, desenvolver uma filosofia de vida digna, agir com ética e criticidade, fazer amizades, integrar emoções, descobrir potências, experimentar arte, exercitar o protagonismo, conhecer direitos e deveres, compreender aspectos da sexualidade. 

É preciso que a sociedade seja um lugar de vida e não de morte para os adolescentes. Que exista lugar para projetos de vida, para expressão das ideias, que acolha o desenvolvimento, que respeite, que ofereça possibilidade para explorar o mundo e sua diversidade. 

É imprescindível a contribuição dos coletivos em seus ensinamentos sobre diversidade e no amparo e fortalecimento das identificações. 

As instituições deveriam disponibilizar oportunidades de aprendizagem e inserção social e não somente punição ou exclusão. 

Infelizmente, muitos adultos esquecem o que viveram na adolescência e tornam-se adultos com um olhar frio e distante diante das paixões adolescentes, muitas vezes impossibilitados de revisitar a própria adolescência no reencontro com a adolescência externa, pelas dificuldades em elaborar o vivido nas próprias adolescências. 

As adolescências dos filhos, leva os pais a revisitarem as suas próprias, e muitas vezes as projeções que podem ser desencadeadas nesse percurso podem causar conflitos e embates. Crescimento mobiliza agressividade, medos e potências. Desejos ambivalentes de ruptura e integração. 

Infelizmente, são escassas as políticas públicas para adolescentes e aumentam os indicadores de violência. No Brasil, segundo o Atlas da Violência, em 2022, 62 jovens foram assassinados por dia no país. Segundo o Unicef, no país, entre 2017 e 2020, 180 mil crianças e adolescentes sofreram violência sexual. 

Como podemos construir um país onde crescer seja protegido por todos? Onde a vida possa ser embalada em cuidado e afeto e não embalada em sacos plásticos para consumo e morte?



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