Cultura é política e meu voto é minha obra arte

Matéria por  Silvero Pereira
28 de Setembro de 2022 - 13:36
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O dia 2 de outubro vem chegando. Arrisco dizer que esse é o dia mais importante do ano de 2022. É dia de eleição. Há quanto tempo não aguardamos ansiosamente por essa oportunidade, né?! Mas você sabe o que a arte tem a ver com isso? Ou melhor, o que os artistas têm a ver com isso? Por que será que vemos cada vez mais artistas se posicionando?

Bom, primeiramente, acredito que a classe artística hoje sente mais liberdade em expressar suas opiniões políticas e ideologias partidárias, ainda que a arte em si não possua partido político.

Mais do que isso, existe hoje um sentimento de dever, de obrigação em não só falar abertamente sobre seu voto, mas convocar as pessoas para o debate político, para a participação nas eleições para que consigamos transformar nossa sociedade e eleger quem, de fato, nos represente.

Com a força das redes sociais, os artistas também se tornam influenciadores de opinião e de voto. Então, cada um se posiciona da forma que acha mais coerente com seus próprios valores. Há quem concorde e quem deteste. E nestas eleições, uma parcela considerável da população tem se demonstrado indignada com certos posicionamentos e até agindo de forma violenta com os artistas da esquerda.

Além do clima de terror e violência política, a explicação que encontro para tanta revolta em torno disso é que essa parcela pouco se importa com a arte a cultura do Brasil, pouco vai ao teatro, a museus, pouco assiste cinema brasileiro, não lê nossos autores e nem imagina as diversas manifestações artísticas da cultura popular.

Duvido que compre ingressos no intuito de valorizar o trabalho do artista e muito provavelmente acredita que o palhaço só serve para animar a festinha de aniversário do filho, que a música só serve a que toca na boate, de preferência de fora do Brasil. Acredito que são pessoas que não enxergam como a arte está presente em tudo o que fazemos e como a Cultura deveria ser vista como algo ordinário, como fala Gilberto Gil: “o nosso feijão com arroz, necessidade básica”.

Pois bem, vamos esclarecer alguns pontos: Existe na arte uma forte relação com a política. Desde de sua origem, diversos artistas usavam seus trabalhos e suas obras, com intuito provocativo, como artifícios tecnológicos de chamar a atenção da população para assuntos de relevância social, despertar senso crítico e promover questionamentos e compreensão.

Para além dessa explicação mais complexa, também tem uma bem simples: a relação entre arte e política está baseada na liberdade de expressão.

Uma obra de arte tenta expressar seu tempo, suas inquietações, sua época. Uma obra de arte pode ser puro entretenimento, mas antes de mais nada, ela é por essência um ato político.

O artista é um operário, um trabalhador e também um catalisador. Ele possui uma engrenagem que não lhe permite descansar. O processo criativo, seja de um ator, bailarino, pintor, escritor, cineasta ou qualquer outro artista, está em constante atenção. Ele não para de funcionar, podendo ter um insight dentro do ônibus, na praia, no bar, no café da manhã, vendo o jornal ou passeando com o cachorro.

Arte é a mais pura expressão cultural, assim como suas motivações e seus impulsos criativos são necessidade e liberdade de uma nação. Ela pode estar à serviço da beleza, do encantamento de uma época, como também pode ser grotesca, causar repulsa, mas independente disso, ela não está alheia a valores políticos.

Belchior já dizia: Não me peça que eu lhe faça uma canção correta, branca, suave. Sons, palavras são navalhas. E eu não posso cantar como convém. Sem querer ferir ninguém! No dia 2 de outubro, vamos sair de nossas casas para realizar uma ação que muitos pensam ser individual, mas que, claramente, é coletiva, social e - por que não? - artística.

* Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor



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