Nos últimos anos, muito se ouviu dizer que Fortaleza possui "uma farmácia em cada esquina". Entretanto, um levantamento da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec) revelou que há quase 9 vezes mais padarias do que drogarias espalhadas pela Capital.
Os dados são de setembro deste ano e apontam um total de 10.062 mil padarias ativas, contra pouco mais de 1,1 mil farmácias.
Os bairros com maior quantidade do empreendimento alimentício são o Centro, o Mondubim, a Messejana, o Jangurussu e a Aldeota. Sozinhos, eles equivalem a 14% do total desses estabelecimentos na Cidade.
Segundo Alex Martins, presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria no Estado do Ceará (Sindpan), das 10 mil padarias da Capital, cerca de 8 mil são Microempreendedores Individuais (MEIs) e aproximadamente 2 mil são pequenas, médias ou grandes padarias.
Confira os 20 bairros com mais padarias em Fortaleza
- Centro: 347
- Mondubim: 282
- Messejana: 275
- Jangurussu: 255
- Aldeota: 252
- Barra do Ceará: 221
- Prefeito José Walter: 210
- Passaré: 198
- Meireles: 186
- Vila Velha: 166
- Bom Jardim: 154
- Siqueira: 151
- Montese: 135
- Parangaba: 133
- Granja Lisboa: 128
- Vicente Pinzón: 127
- Papicu: 125
- Serrinha: 121
- Jardim das Oliveiras: 118
- Joaquim Távora: 117
Por que as padarias pequenas são a maioria?
A distância que as padarias conseguem conquistar clientes, chamada de raio de atratividade, é de 500 metros, segundo Cláudia Buhamra, professora de Marketing da Universidade Federal do Ceará (UFC).
Ela explica que, por se tratar da venda de itens de consumo, o público tende a procurar os negócios mais próximos de suas moradias. Por conta disso, esse setor registra grande volume tanto em bairros centrais de comércio quanto em bairros descentralizados e residenciais.
Quando você está falando de produtos de conveniência, como pão, como alimentos para café da manhã, essas coisinhas mais básicas, a tendência é que você tenha menos esforço na busca. O ganho, o benefício do achado, tem que ser maior do que o esforço da busca
Essa circunstância contribui para o grande número de registros ativos nesse meio alimentício. “Os donos de padarias sabem que o raio de atratividade deles vai a 600 metros, 700 metros. Então, você tem muito espaço para colocar negócios de alimentação a cada 500 metros um do outro”, explica.
Inovação e tradição
As padarias são comércios que sempre estiveram em alta pela cidade de Fortaleza. Entretanto, a especialista afirma que a forma clássica desse negócio tem diminuído bastante devido, especialmente à sua própria inovação.
Segundo Cláudia, elas buscam abranger outros eixos de venda para se sustentar diante da concorrência, que se configura tanto pelas demais padarias quanto por supermercados, que passaram a vender pães congelados.
Para se diferenciar, algumas começaram a investir em pães artesanais, buscando trazer uma marca para o próprio negócio. Além disso, expandiram a padaria para poder ofertar também produtos de mercearia e um ambiente que disponha de self-service, com opções variadas para as três refeições do dia.
A inovação é igualmente apontada pelo presidente do Sindpan, que afirma que “padaria se transformou e [ainda] continua nessa metamorfose. Essas modificações, que são rápidas, são o que fazem muitas pessoas entrarem no setor”.
Você percebe clareza nessa movimentação das padarias tradicionais clássicas, que não negam as suas origens, mas se reinventam para vencer a competitividade
Por que não percebemos tantas padarias quanto farmácias?
A docente aponta dois fatores para justificar o motivo de a população acreditar que as farmácias são o maior quantitativo comercial de Fortaleza: a padronização e a aglomeração.
“É muito mais fácil você captar a repetição da imagem do que imagens completamente diferentes”, explica a especialista, fazendo referência ao padrão de logotipos, cores chamativas, tótens e até às fachadas presentes na construção da maioria das farmácias, que contribuem para a associação instantânea do lugar ao comércio.
Observar com frequência uma mesma frente de loja, apesar de estarem em pontos diferentes da cidade, traz “uma sensação de volume que é diferente das padarias”, que possuem logos e fachadas “completamente diferentes, e uma não traz a memória de outra”.
Cláudia também chama atenção para o fato de as farmácias estarem “se aglomerando”. Antes, elas se instalavam próximas a negócios de grande alcance, buscando motivar o consumidor a aproveitar o deslocamento até ali e dar a famosa "passadinha" na drogaria.
Entretanto, essa rede passou a mudar sua tática e adotar a chamada atração de vizinhança, que ocorre quando “negócios idênticos se colocam um ao lado do outro para gerar movimento”.
A especialista expõe que isso não era algo comum para esse ramo de comércio, e que é esse o novo fator que gera a sensação "de aglomeração, de coisa demais para a Cidade”.
*Estagiária sob supervisão do jornalista Hugo R. Nascimento.