O novo perfil do médico e os desafios do mundo em transformação

Opinião da médica Olivia Bessa, diretoria de Pós-Graduação da Escola de Saúde Pública e Professora do Curso de Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade de Fortaleza

Matéria por  Redação
18 de Outubro de 2021 - 06:00

Nos últimos anos tem-se observado muitas mudanças no perfil do médico brasileiro. Em 2020, o Brasil atingiu uma marca histórica e passou a contar com 500 mil médicos. Trata-se do maior quantitativo e da maior densidade de médicos já registrados. No entanto, esse significativo aumento ainda não foi capaz de reduzir as desigualdades regionais e nem beneficiou de forma homogênea a população e o sistema de saúde.

O país ainda se defronta com hiperconcentração de médicos nas capitais e com alta rotatividade e dificuldade de fixação e reposição de profissionais nos municípios do interior e em áreas rurais.

Além do crescimento inédito da força de trabalho, impulsionado pela abertura de novas escolas e pelo aumento do número de vagas em cursos já existentes, tem-se observado ainda que a medicina está cada vez mais jovem e feminina. A média de idade dos médicos em atividade no Brasil é de 45 anos e vem caindo ao longo do tempo, o que aponta para a renovação geracional da profissão. Ao mesmo tempo, a crescente feminização da carreira médica é evidente na evolução da distribuição por gênero ao longo dos últimos anos.

O Ceará tem acompanhado essa tendência nacional e hoje conta com 15.100 médicos, sendo 1,65 médicos por mil habitantes, abaixo da média nacional (2,4 médicos/1000 habitantes), com dois terços concentrados na capital.

Em função disso, o estado do Ceará vem desenvolvendo ações de mudança no desenho organizacional da rede de serviços de saúde, com o fortalecimento da regionalização, interiorização e ampliação dos equipamentos de saúde. Esse modelo muitas vezes tem se defrontado por uma carência de profissionais, sobretudo médicos especialistas.

A pandemia pela Covid-19 tornou mais evidente esse problema e tem sido um grande desafio para gestores e profissionais da saúde, com uma demanda de adequação do processo de trabalho, ampliação e organização dos serviços de saúde.

A Escola de Saúde Pública do Ceará, atenta a essa demanda, desenvolveu o Projeto Ampliares, com o propósito de regionalizar as Residências em Saúde, com a formação de especialistas em áreas médicas prioritárias em municípios do interior do Estado, de acordo com as necessidades regionais de saúde da população.

Essas transformações da sociedade moderna têm colocado em questão aspectos relativos à formação do médico. Que perfil profissional a sociedade precisa? Que competências precisam ser desenvolvidas? Esse novo cenário de incertezas e complexidade, incluindo a pandemia, requer uma formação profissional, onde além das competências técnico-científicas, é necessário desenvolver competências intra e interpessoais. Flexibilidade, criatividade, empatia, apreço à diversidade, comunicação, colaboração, resolução de conflitos, liderança, trabalho em equipe, pensamento crítico e reflexivo são características profissionais essenciais para o médico da atualidade.

Há um consenso na necessidade de mudanças do processo de educação médica, reconhecendo seu papel social de formar médicos preparados para acolher as necessidades das pessoas, considerando a sua integralidade e singularidade, e prestar cuidados contínuos e resolutivos e com competências em diversos campos do saber. O redesenho dos cursos deve considerar as conexões entre as práticas educacionais, a realidade social e necessidades assistenciais da população. O resultado será uma educação transformadora, com impacto na qualidade do sistema de saúde e o consequente benefício para pacientes e populações.

Olivia A A Costa Bessa

Diretoria de Pós-Graduação da Escola de Saúde Pública Professora do Curso de Medicina e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade de Fortaleza



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