Mortes por Covid e ocupação de UTIs vão “demorar a cair” em Fortaleza, estima epidemiologista da SMS

Antonio Lima, coordenador da Vigilância Epidemiológica, aponta que comportamento da doença na segunda onda mudou critérios de flexibilização

Matéria por  Theyse Viana
27 de Abril de 2021 - 12:10
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Transmissão mais acelerada, jovens mais infectados e maior tempo de internação são três das preocupações que a segunda onda da Covid-19 trouxe ao Ceará. Além da lida com a doença, elas mudaram até os critérios de flexibilização das medidas sanitárias, como avalia o epidemiologista Antonio Lima.

De acordo com o médico, coordenador da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e professor de Medicina da Universidade de Fortaleza, a nova variante do coronavírus desenhou os contornos da segunda onda pandêmica no Estado e exigiu “adaptação” na gestão da crise.

A ocupação dos leitos de UTI, por exemplo, não é mais um critério rigoroso para afrouxar ou não o isolamento social: um só paciente demora, hoje, muito mais tempo hospitalizado, de modo que o indicador “vai demorar muito a cair para 80%”, índice antes tido como “ideal” para avanço de fase.

Em entrevista ao Diário do Nordeste, Antonio Lima revelou, ainda, que o sistema de saúde “deverá, sim, ter estruturas de apoio exclusivas para pacientes que tiveram Covid e têm sequelas ou sintomatologia associada” do coronavírus.

Confira entrevista completa:

Qual o atual momento epidemiológico de Fortaleza?

Tivemos um pico da segunda onda no dia 6 de março, com 1.300 casos de média móvel. A curva trafegou março todo caindo, teve repique no começo de abril, e voltou a cair. A tendência é de declínio, mas está sendo monitorada rigorosamente. 

Quanto aos óbitos, é uma onda mais larga: vamos demorar para reduzi-los, porque temos muitas pessoas internadas graves. É como se a gente estivesse em junho da primeira onda. Mas a curva de casos não cairá com a mesma velocidade da primeira vez.

Foto: Camila Lima

O que diferencia a segunda onda da primeira?

A primeira onda foi foi muito veloz até chegar ao pico, atingido em poucos dias tanto em casos como em óbitos. Porque havia uma população 100% desprotegida. A descida também foi muito abrupta, por fatores imunológicos e pelo primeiro lockdown, que foi muito eficiente.

Já a segunda onda tem elementos diferentes, com crescimento de casos entre jovens de bairros de maior IDH. Desde outubro, cresce linear, mas com pouca mortalidade ainda em comparação à primeira. Em dezembro, houve mudança de padrão, principalmente pela dominância da variante P1 na cidade. 

80%
das amostras de testes de Covid de Fortaleza sequenciadas em janeiro deram positivo para a nova variante.

A contaminação vinha mais lenta, e explodiu de janeiro para fevereiro com enorme número de hospitalizações, casos graves, deslocamento de faixa etária e reinfecção; com Capital e interior sofrendo simultaneamente.

Como os bairros estão sendo impactados? Há trajetórias de infecção recorrentes?

No início da pandemia, havia bairros em que praticamente só havia casos graves e óbitos, porque testavam pouco. Quando começamos a tentar entender a dispersão parcial da primeira onda, trabalhamos com simulações matemáticas utilizando os óbitos.

A subnotificação de casos na periferia era muito grande, e de óbitos era bem menor. Tivemos que usar, infelizmente, o marcador ‘óbito’ como o mais confiável.
 

Tivemos um grande ataque do vírus nas áreas de mais alto IDH – Aldeota, Meireles, Mucuripe, Cocó e Papicu –, um grande aglomerado que durou até o início de abril, e se dispersou pelo litoral, chegando ao Cais do Porto, à Barra do Ceará, Pirambu e Vila Velha, área com maior mortalidade de Fortaleza.

O que ainda é nebuloso pra nós sobre a primeira onda é que ela poupou praticamente toda a Regional VI: houve muitos casos no Jangurussu, Conjunto Palmeiras, Messejana, Edson Queiroz, mas não teve grande mortalidade.

Hoje, que bairros de Fortaleza preocupam mais?

Como os dados ajudam a formatar a rede de atenção básica?

Dizem muito que essa é uma epidemia democrática, mas não é bem assim. Pode ser no número de casos, mas não nos desfechos fatais: 80% ou mais das pessoas que morrem são moradoras de áreas periféricas. Isso não se dá só pela assistência, mas por uma série de desigualdades históricas. 

A média de idade de quem morre de infarto num bairro periférico é de menos de 65 anos; no Meireles, é de 82. É a mesma doença. Os determinantes sociais são importantes na Covid também.

Onde a segunda onda começa? Com os jovens de alto IDH, que puderam fazer isolamento social de verdade na primeira, em casa, com acesso a tudo. Como se isolar em uma casa sem janela, com 8 pessoas dentro? Me incomoda demais essa insensibilidade social de culpar os pobres por não fazerem isolamento. É fácil falar assim, mas a realidade é difícil.

Temos 93% das UTIs ocupadas no Ceará, e a liberação das academias e igrejas, por exemplo. Os critérios de flexibilização mudaram ao longo da pandemia?

Em determinado momento, quando não há um auxílio emergencial que possa favorecer a existência das pessoas, é preciso equilibrar o discurso epidemiológico e as manobras para não causar danos importantes, sobretudo às populações mais vulneráveis.

Alguns critérios podem mudar. Há uma redução consistente de casos, mas não se atingiu a ocupação de UTI ideal, porque a segunda onda mostra uma média de dias muito maior de internação, às vezes até 30 dias. Provavelmente, vamos aguardar muito tempo ainda até chegarmos a uma ocupação de 80%.

Por outro lado, um critério que não pode ser flexibilizado, por exemplo, é o número de pacientes que chegam à assistência precisando de internação. Nesse momento, temos, sim, redução disso. Casos, circulação viral e taxa de transmissão também estão caindo. 

32%
dos testes de Covid dão positivo em Fortaleza, uma queda de 10 pontos percentuais em relação ao início do ano. 

Quanto à vacinação, o andamento é positivo em Fortaleza?

Estamos num ritmo bom, já vencendo todo o grupo prioritário de idosos. O impacto já está acontecendo. O Brasil sempre teve capacidade para vacinar rápido e bem, isso depende de termos as vacinas. Em chegando, conseguiremos rapidamente atingir os grupos prioritários com muita eficácia.

Foto: José Leomar

VACINÔMETRO NO CEARÁ | COVID-19

Que sequelas o coronavírus deve deixar para a população e para o sistema de saúde?

Devemos ter estruturas de apoio exclusivas para pacientes que tiveram Covid e têm sequelas ou sintomatologia associada, como psiquiátricos, cardíacos, pulmonares, reumatológicos, metabólicos e endocrinológicos.

Mas tem também o legado da assistência: apesar de toda a dor e sofrimento de um número enorme de famílias, teremos um legado de organização do sistema de saúde, tanto no Estado como na Prefeitura. Isso não se restringe a leitos e unidades de saúde, mas ao modo de enfrentar uma contingência: muitos de nós estamos mais capazes e eficientes na gestão do sistema de saúde.



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