Após tirar comida do lixo, Sandra quer reformar casa e tratar dentes: 'botar minha vida pra frente'

O Diário do Nordeste inicia hoje o Especial "Eu Tenho um Sonho", para contar histórias de quem, apesar dos dilemas cotidianos, mantém a crença no futuro

Escrito por Lucas Falconery lucas.falconery@svm.com.br
20 de Dezembro de 2021 - 07:00
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São poucos metros entre os apartamentos de alto padrão no bairro Aldeota, em Fortaleza, e a casa de vão único e telhado baixo onde vive Sandra Holanda, de 57 anos - presente na cena em que a fome impôs a busca por comida em caminhão de lixo. Enquanto a vida acontece, a ex-diarista é uma das milhões de pessoas que mantêm o hábito de sonhar. 

“O meu sonho é ajeitar essa casa, passar um cimentinho, porque está muito distiorada”, compartilha. A esperança de um futuro melhor também vem pelo desejo de algo que pode passar despercebido entre as rotinas. “Perdi meus dentes todos. Colocar uma prótese também é meu sonho”, revela enquanto sorri com timidez para as fotos durante a entrevista.

Sem acesso aos serviços de saúde, a mulher inicialmente reluta, inclusive, em sorrir para a câmera

Sandra, assim como tantos, sobrevive  sonhando. Nesta semana, ela se integra a um grupo de pessoas que revelam ao Diário do Nordeste conta, por meio do "Especial Eu Tenho um Sonho", histórias ligadas a esses desejos, mostrando que, possíveis ou não, são diversos, fortalecedores e funcionam como sustentação para o presente e o porvir. São íntimos, universais e coletivos. Estão em todos, ainda que no silêncio. 

Na casa simples em que vive e sonha reformar, Sanda vivem sem o básico. Luz só entra pela porta da frente, no espaço de piso batido e paredes com tijolos à mostra. A pandemia agravou a situação financeira da familía. Eletricidade e água encanada foram cortadas no período. E o banheiro seuqer foi construído dentro da residência.

Sandra compartilha com a equipe como faz bem contar sobre a situação da vida.
Legenda: Sandra compartilha com a equipe como faz bem contar sobre a situação da vida. "É bom desabafar".
Foto: Fabiane de Paula

“A minha geladeira era cheia de coisa, tinha iogurte e verduras, mas agora se você abrir aí… No mercantil, eles não querem que a gente pegue mais nada. Está proibido. E o carro (do lixo) está passando 3h da madrugada”, frisa.

Desde que perdeu a renda das faxinas e das lavagens de roupa, por causa da pandemia da Covid-19, Sandra viu o cenário de vulnerabilidades se intensificar.

A casinha pequena e simples está sempre limpa, como faz questão de ressaltar dona Sandra
Legenda: A casinha pequena e simples está sempre limpa, como faz questão de ressaltar dona Sandra
Foto: Fabiane de Paula

O lugar apertado onde vive com o esposo deficiente visual pertenceu ao irmão da mulher. Os dois moram no lugar há quatro anos, mas antes disso, Sandra viveu por 15 anos em situação de rua - “abrigada” em um prédio abandonado na região.

Em meio ao sufoco, voluntários e pessoas sensibilizadas com a história dela enviaram cestas básicas e pagaram o débito, em cerca de R$1.000, da soma entre as contas de água e de luz. “Eu vou ganhando e vou repartindo, porque eu não vou comer e deixar elas (filhas) com fome”.

Além dos filhos, a avó acompanha quatro netos mais próximos a quem ajuda como pode e com o pouco que consegue. “Ave Maria, minha família é tudo que eu tenho na minha vida”, resume sobre o significado das pessoas por quem se fortalece.

Isso porque compartilhar faz parte da rotina de Sandra, mas não sem antes esforço. No corredor lateral da casa fica o carrinho de mercantil usado para trazer os alimentos encontrados na rua ou frutos de doações.

Gratidão pela vida sempre está nas palavras da mulher mesmo diante de um cenário difícil
Legenda: Gratidão pela vida sempre está nas palavras da mulher mesmo diante de um cenário difícil
Foto: Fabiane de Paula

Depois da repercussão nacional do vídeo, outra ferramenta sobre rodas entrou para a realidade: a mulher ganhou um carrinho de lanches e, agora, busca recursos para a compra o material para preparar cachorros-quentes.

Quero estar trabalhando nesse carrinho, ajeitar minha casa e ir levando a vida. Não tenho ambição não, sabe? Tendo minha barriga cheia e onde trabalhar eu pretendo botar minha vida para frente
Sandra Holanda
Desempregada

Sandra pretende vender os lanches para conseguir ter o básico em casa. “Eu estava com Bolsa Família, mas cortaram não sei o porquê. Ainda recebi três parcelas do Auxílio Emergencial e comprei essa geladeira, comprei esse fogão de segunda mão, porque eu cozinhava com álcool”.



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