Mais de 20 incubadoras foram ligadas no 'Beco da Poeira' após incêndio no Hospital César Cals

Comerciantes fecharam boxes e cederam espaço para proteger bebês prematuros.

14 de Novembro de 2025 - 12:10
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“Você não pensa, só faz.” Foi com essa atitude que trabalhadores do Beco da Poeira, centro de comércio popular na Avenida Imperador, em Fortaleza, contribuíram para salvar a vida de mais de 20 bebês durante o incêndio que atingiu o Hospital Geral Dr. César Cals (HGCC), nessa quinta-feira (13).

Quando a fumaça preta subiu na subestação elétrica da unidade de saúde, foi iniciada uma força-tarefa entre eles para ajudar a retirar as gestantes, puérperas e os bebês, vários deles prematuros, que estavam internados no local.

Só nos três boxes de Anderson Oliveira, 22 incubadoras foram ligadas para manter o suporte aos pequenos. “Fechei as lojas e botei eles. Desligamos tudo, só deixamos o ar-condicionado. Eram uns ‘bichinhos’ tão pequenininhos…”, lembra. “O que a gente podia fazer era ajudar”, relata.

Anderson chegou a recusar a entrada de um cliente porque não pensava em vendas no momento. Para ele, com a proximidade das reflexões de fim do ano, a lição que fica do dia atípico é a “sensação de dever cumprido”.

Anderson Oliveira cedeu as três lojas para acomodar os bebês em incubadoras.
Legenda: Anderson Oliveira cedeu as três lojas para acomodar os bebês em incubadoras.
Foto: Fabiane de Paula.

O pequeno espaço da loja em que a jovem Isabelly Kilvia trabalha também foi ocupado por quatro incubadoras. “Tiramos um móvel da loja e afastamos outros pra botar eles aqui, tentar ligar eles. Tentamos fazer de todos os modos pra ajudar tanto as enfermeiras como as mãezinhas”, diz.

Ela narra que, quando a fumaça começou a invadir o Beco e os gritos de “fogo! fogo! fogo!” começaram, “era muita criança e grávida” saindo da unidade, todas sendo acolhidas nos boxes do tradicional centro comercial da cidade.

Isabelly Kilvia ajudou a afastar produtos de loja de eletrônicos para acomodar quatro incubadoras.
Legenda: Isabelly Kilvia ajudou a afastar produtos de loja de eletrônicos para acomodar quatro incubadoras.
Foto: Fabiane de Paula.

“Já tinha muita criança nas outras lojas. Pegamos várias extensões pra ligar tudo. Pediram água e a gente dava pra acalmar as mãezinhas, álcool (para higienizar)… A gente só auxiliava mesmo. Eles ficaram por uma hora aqui”, relata.

Eu fiquei em choque ‘meu Deus, o que é isso?!’, mas a gente conseguiu agir nessa situação de choque. Eu acredito que ficou a lição de que devemos ajudar independentemente da situação e do que vai acontecer.
Isabelly Kilvia
Comerciária

'Embrulho era um bebê'

O relógio marcava pouco depois das 10h, perto do almoço de Genilson Silva, quando o incêndio começou. Para ele, o HGCC, vizinho do local de trabalho, era um hospital de trauma – mas ao ver um enfermeiro sair “com um embrulho”, descobriu que não.

“Quando fui perceber, o embrulho era um bebê, um recém-nascido. Quando vi isso, fui lá pra frente perguntar se precisavam de ajuda. Foi quando as enfermeiras começaram a trazer os carrinhos com os bebês maiorzinhos e os prematuros”, relata o homem.

“Não pensei duas vezes. Só pensei ‘temos que tirar eles daqui’, porque os corredores já estavam cheios de fumaça. Botamos na lateral da calçada, no meio fio, aí o pessoal das lojas começou a abrir espaço e se mobilizar”, descreve Genilson.

As incubadoras eram pesadas, mas eu ficava dizendo ‘gente, não bate, não treme!’. É uma criancinha pequena, você vê o pezinho, a mãozinha, ainda não totalmente formada…
Genilson Silva
Comerciário

Genilson Silva correu até o hospital para ajudar a retirar bebês em situação de risco.
Legenda: Genilson Silva correu até o hospital para ajudar a retirar bebês em situação de risco.
Foto: Fabiane de Paula.

Ele lembra que, em meio ao caos, “tinha muita gente filmando com o celular”, e “só depois que eu e outro cara fomos lá pra frente ajudar foi que outras pessoas começaram a ajudar também”. O desespero de mães, acompanhantes e profissionais de saúde era palpável – mas “nessa hora, tem que deixar o emocional de lado e agir”.

“Tinha muita gente chorando, mas era hora de agir, ajudar. Você não pensa, só faz. Assim como meu patrão fez também: ele só empurrou as incubadoras, derrubando tudo. O importante era trazer segurança aos bebês.”

Ao fim da operação de transferência dos pacientes do Hospital César Cals, que durou cerca de 8 horas, 153 mulheres e 117 bebês foram levados a outras várias unidades de saúde da Capital, segundo informações oficiais da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

Incêndio no hospital

O incêndio no Hospital Geral Dr. César Cals ocorreu na parte externa da unidade, na área das docas, onde fica a subestação de energia da instituição. A informação oficial da Sesa é de que não houve vítimas no incêndio.

Com 97 anos de funcionamento, o HGCC é referência em obstetrícia e neonatologia, e possui mais de 290 leitos. Só de janeiro a setembro deste ano, realizou mais de 3 mil nascimentos, uma média de 338 por mês. Além disso, possui diversos serviços especializados, como o Banco de Leite Humano e a assistência a gestantes de alto risco.

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