Fogo subterrâneo e solo inflamável: entenda dificuldades para combate a incêndio no Parque do Cocó

Especialista explica fatores que favorecem o incidente, que já consumiu área acima de quatro campos de futebol

Matéria por  Carol Melo
19 de Janeiro de 2024 - 13:55
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Uma área maior do que quatro campos de futebol foi consumida pelo incêndio no Parque Estadual do Cocó, em Fortaleza. Na tarde desta sexta-feira (19), a vegetação continua sendo queimada por uma espécie de fogo subterrâneo, dificultando o combate na área que de difícil acesso. 

Conhecido também como "fogo de turfa", este tipo de chama tem uma queima mais lenta e atinge uma camada abaixo do nível da superfície, e nem sempre é visível, como detalhou o coronel do Corpo de Bombeiros, Cláudio Barreto.

"O processo [de combate] é lento. [...] Esse fogo não está na superfície, é um 'fogo de turfa', ou seja, ele está debaixo da terra. Isso dificulta cada vez mais o nosso trabalho", disse à TV Verdes Mares

Turfa é um solo característico de áreas alagadas, como as observadas em zonas de pantanal ou de mangue — caso do Parque Estadual do Cocó. Formado pelo acúmulo de galhos, folhas e raízes, por exemplo, o terreno subterrâneo é rico em matéria orgânica, como explica o professor Gabriel Nuto Nóbrega, membro do departamento de Ciências do Solo, da Universidade Federal do Ceará (UFC).

"Em ambientes alagados, como são as várzeas, algumas regiões de manguezais, por exemplo, a material orgânica se decompõe de uma maneira mais lenta. Então, possibilita o acúmulo de grande quantidade de material orgânico, sob essa condição. Então, essa turfa é justamente esse material orgânico produzido pelas plantas que estão ali no ambiente alagado, e que, por causa do alagamento, não conseguem se decompor", detalha.

Durante o período de seca, quando o nível da água reduz e a região deixa de ser alagada, a turfa fica menos úmida e, devido à quantidade de material orgânico, se torna um solo inflamável, facilitando a propagação de incêndios.

Quando você tem um momento de seca, como a gente está tendo agora, onde o lençol freático baixa e o nível do rio baixa, esse material fica exposto. Não tendo a presença de água, ele fica mais suscetível a pegar fogo. [...] São resíduos vegetais, assim como galhos, folhas. Como é um resíduo geralmente de raiz, de raiz fina, ele pega fogo muito fácil."
Gabriel Nuto Nóbrega
Professor do departamento de Ciências do Solo da UFC

Além do terreno subterrâneo inflamável, outro fator que influenciou a dificuldade no combate ao incêndio no Parque Estadual do Cocó foi a localização: as chamas atingiram uma área de difícil acesso. Sem passagem para as viaturas, os agentes do Corpo de Bombeiros atuam a pé. Helicóptero e retroescavadeiras também atuam na operação para debelar o fogo. 

Umidade baixa, velocidade do vento e aumento da temperatura, característica do turno vespertino, também são fatores que podem atrapalhar o trabalho da corporação, que continuava atuando no local, até o início da tarde desta sexta-feira, para extinguir as chamas. 

"A expectativa é que durante o dia, a umidade tende a diminuir, a temperatura tende a aumentar, e a gente pode ter também o aumento da velocidade dos ventos. Então, todos esses fatores tendem a piorar a questão do incêndio", detalhou o capitão Fábio Plutarco à TV Verdes Mares

Causa do incêndio no Cocó

motivação do incêndio ainda não foi descoberta pelas autoridades. Equipes da Polícia Civil e da Perícia Forense do Estado do Ceará (Pefoce) estiveram no local, na noite dessa quinta-feira (18), para auxiliar nas investigações do caso. 

O governador do Estado, Elmano de Freitas (PT), informou, por meio de publicação nas redes sociais ainda nessa quinta, que está acompanhando as operações do Corpo de Bombeiros e determinou a "apuração rigorosa sobre as causas do incêndio".



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