Entenda como funciona a fila de transplantes e por que não há possibilidade de ‘furar’ a ordem

Logística do SUS ganha visibilidade após o apresentador Faustão precisar de um novo coração; Ceará tem 1.604 pacientes aguardando por órgãos e tecidos

Matéria por  Lucas Falconery
23 de Agosto de 2023 - 06:00
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A incerteza sobre o transplante de um órgão ou de tecidos (como medula) atinge 1.604 pessoas no Ceará, sendo a principal espera por rim, com 71% dos pacientes, até esta terça-feira (22). Os pacientes são organizados numa fila estadual, interligada pelo Sistema Nacional de Transplantes, com critérios definidos para cada tipo de procedimento.

Essa logística ganha visibilidade após o apresentador Fausto Silva receber indicação para transplante de coração e entrar na fila do Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo sendo acompanhando no Hospital Israelita Albert Einstein – referência da assistência particular.

Na prática, cada estado brasileiro possui a sua fila de espera que são interligadas pelo sistema nacional. Além da ordem de inscrição, fatores como compatibilidade e peso, por exemplo, são adotados para a definição da lista, como explica Eliana Barbosa, coordenadora da Central Estadual de Transplantes.

Lista de espera por transplante de coração e demais órgãos

  • Avaliação: uma equipe de transplantes autorizada pelo Ministério da Saúde analisa a situação do paciente com consultas e exames;
  • Inscrição: as informações do paciente são cadastradas no sistema informatizado de transplantes que gerencia a lista de espera;
  • Espera: o aguardo acontece até um doador em potencial, com morte encefálica confirmada e com autorização da família, ser identificado como compatível;
  • Definição: o sistema analisa a compatibilidade do paciente com o órgão e as equipes buscam os hospitais para verificar a possibilidade de realização do procedimento.

“A posição em lista é feita com base em critérios técnicos definidos em portaria, como grupo sanguíneo em relação a compatibilidade. No caso do coração e do pulmão, o peso é um critério”, exemplifica Eliana. Isso porque o órgão precisa ser transferido para um corpo de dimensões similares ao do doador. 

“Cada órgão tem seus critérios de seleção, mas o que dá uma pontuação maior é a compatibilidade do código genético. Quanto mais compatível, o paciente (tende a) ser o primeiro da fila”, completa.

Por exemplo, um paciente que está internado com dispositivos mecânicos terá prioridade em relação àquele que está hospitalizado, mas não necessita de aparelhos para continuar sobrevivendo.

Após a efetivação da doação do órgão, e feita a avaliação da fila pelo sistema, o paciente é avaliado para confirmar a possibilidade de cirurgia. Isso precisa ser feito de forma breve já que alguns órgãos, como o coração, precisam ser transplantados em até 4 horas.

“Ligamos para a equipe que avalia as condições de aceitar o transplante e o procedimento é realizado. Mas, se naquele momento, tiver um quadro infeccioso impossibilita o procedimento, a equipe justifica e a gente vai para o próximo”, detalha.

Caso não tenha nenhum paciente apto no Ceará, a informação sobre a disponibilidade do órgão é feita ao Ministério da Saúde. O Sistema Nacional, então, é quem define para onde o material será acompanhado.

Notícias sobre o transplante do apresentador acompanham questionamentos sobre a logística do SUS
Legenda: Notícias sobre o transplante do apresentador acompanham questionamentos sobre a logística do SUS
Foto: Reprodução/Diário do Nordeste

“Através de critérios vai distribuir esses órgãos para os demais estados, que chegam por meio de uma cooperação técnica com as empresas aéreas que fazem esse transporte de forma gratuita”, completa Eliana.

Quantas pessoas tem na fila de transplante no Ceará

O Ceará tem 1.604 pacientes aguardando transplante de órgãos e tecidos, sendo 1.146 pacientes renais. Como Faustão, 5 pessoas aguardam por coração no Estado. Ao todo, já foram realizados 1.037 transplantes gerais entre cearenses esse ano.

Em todos os casos, as negativas para doação de órgãos prejudicam milhares de vidas no Brasil.

Para se ter uma dimensão disso, no Ceará, 51% das entrevistas feitas com familiares de potenciais doadores de órgãos foram negadas entre janeiro e março deste ano, conforme o levantamento do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT).

Essa taxa se deve a uma desinformação e a gente atribui não aos familiares, mas pela falta de acolhimento adequado e uma comunicação qualificada por parte dos profissionais da saúde
Eliana Barbosa
Coordenadora da Central Estadual de Transplantes

Por isso, são feitos cursos de comunicação com os profissionais da saúde para capacitação. São trabalhadas habilidades relacionadas à empatia. Campanhas como o “Doe de Coração” e “Setembro Verde”, como acrescenta, contribuem para levar informações adequadas para a sociedade.



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