Doação de órgãos cresce 60% em 2022 no Ceará, mas 3 a cada 10 famílias ainda recusam pedido

Quem aceita doar rins, fígado, coração, dentre outros, tira centenas de pacientes da fila de espera por transplante

Matéria por  Lucas Falconery
04 de Setembro de 2022 - 10:05
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Os dois anos iniciais da pandemia causaram a queda da doação de órgãos no Ceará, mas o quadro começou a mudar: entre janeiro e julho deste ano, 133 doações efetivas foram feitas, ante as 83 do igual período de 2020.

O aumento de 60%, no entanto, poderia ser maior, já que em média 3 a cada 10 famílias recusam conceder os órgãos dos pacientes falecidos.

Os dados de doações e transplantes são da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), disponíveis na plataforma IntegraSUS. Já o balanço das entrevistas para doação é da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Entre janeiro e junho deste ano, foram realizadas 266 abordagens com famílias de potenciais doadores de órgãos, mas 85 (32%) recusaram o pedido. Esse é um dos fatores ligados à espera angustiante de quem precisa de um órgão para sobreviver.

“É bem verdade que a Covid impactou muito até porque havia uma prioridade das pessoas que tinham de ser assistidas, mas hoje com isso controlado a gente pede que voltem a doar”, analisa Elodie Hyppolito, médica hepatologista e coordenadora da campanha Doe de Coração 2022.

O Ceará registrou 1.061 pacientes ativos na fila de espera para transplante de órgãos, sendo a maior demanda, com 908 casos, por rim. Na sequência, vem fígado (124) e pulmão (7), como detalham os dados da ABTO.

O Estado, contextualiza Elodie, já ocupou a 2ª colocação no maior número de doações de órgãos, mas caiu para a 5ª posição esse ano.

“Tivemos uma pequena recuperação agora, mas estamos longe dos números desejados. O ideal é que a gente tenha um índice de doação de 40 doadores por 100 mil habitantes para atender a demanda de necessidade e evitar a fila de transplante”, detalha.

Confira os estados com maior número de doadores efetivos em 2022, conforme a ABTO

  • São Paulo: 453
  • Paraná: 230
  • Rio de Janeiro: 173
  • Santa Catarina: 139
  • Ceará: 115
  • Minas Gerais: 115
  • Rio Grande do Sul: 96
  • Pernambuco: 65

O Estado, inclusive, contribui para o transplante de pacientes vindos de outros lugares do País, como acrescenta Elodie.

“O Ceará é referência nos transplantes de órgãos, especialmente, no transplante de fígado e isso se deve à generosidade do povo cearense. Hoje, 60% dos pacientes transplantados no Estado vêm de outros lugares do Nordeste e do Norte”, completa.

Doação de órgãos devolve vida a pacientes

Cerca de 7 pessoas podem ser beneficiadas com córneas, rins, pulmões, coração e fígado - por exemplo - de um mesmo doador. Mas, no luto, muitas famílias não conseguem pesar o impacto positivo e optam por não ceder os órgãos, como observa Elodie.

Por isso, profissionais da saúde, pacientes e famílias buscam conscientizar a população e orientam que o desejo de doar órgãos seja comunicado. “Precisa apenas dizer para a família a vontade o que, normalmente, é respeitado no momento de muita dor”, completa.

  • Doador vivo: Um dos rins, parte do fígado, parte da medula ou parte dos pulmões
  • Doadores falecidos: Rins, coração, pulmão, pâncreas, fígado e intestino, córneas, válvulas, ossos, músculos, tendões, pele, cartilagem, medula óssea, sangue do cordão umbilical, veias e artérias.

Foi por meio de um gesto de generosidade, vindo de um desconhecido, que Jailma Leal, de 43 anos, saiu da fila por um transplante de fígado depois de um ano e meio de espera, em 2019.

“Eu chorava que nem criança, porque você recebe a chance de poder renascer. Ainda não tem certeza (sobre a cura), mas vem muita alegria”, lembra sobre quando descobriu o encontro de um órgão compatível.

Jailma foi diagnosticada com cirrose hepática autoimune, que não tem relação com o consumo de bebida alcoólica, em 2018.

Jailma veste a camisa das campanhas em prol da doação de órgãos
Legenda: Jailma veste a camisa das campanhas em prol da doação de órgãos
Foto: Acervo pessoal

“Foi muito rápido, um dia comecei a ter calafrios de chegar a tremer, pensei que era uma gripe, mas passou um mês. As minhas pernas começaram a inchar e eu não conseguia nem subir uma escada”, lembra.

Uma série de exames e consultas médicas, daquele momento em diante, passaram a fazer parte do cotidiano de Jailma.“Passei um ano e 5 meses na fila, a doença foi avançando, fui ficando mais fraca, perdendo até a memória”, destaca.

Ela admite que desconhecia o funcionamento da doação de órgãos, mas hoje já levou a filha, o marido e outros parentes a abraçarem a causa.

“Quando passei por tudo eu passei a conhecer e hoje faço campanha, sempre estou falando isso nas redes sociais, com os amigos e família sobre a importância para salvar uma vida”

Por que recusam ao pedido de doação de órgãos?

Em geral, o desconhecimento sobre o processo de doação de órgão e a relevância do ato para salvar a vida de outras pessoas é o ponto em comum entre as famílias que negam os pedidos.

Muitos temem, por exemplo, que a retirada dos órgãos aconteça com o paciente ainda vivo ou que o procedimento possa transfigurar a pessoa, como contextualiza Elodie. A legislação, no entanto, garante que o corpo seja entregue de forma adequada.

“Não existe possibilidade de os órgãos serem retirados de uma pessoa em vida, porque o processo de diagnóstico de morte encefálica é bastante cauteloso feito em dois momentos por dois médicos diferentes”, pontua.

Pacientes levam informações para a sociedade como forma de sensibilizar mais pessoas para a causa
Legenda: Pacientes levam informações para a sociedade como forma de sensibilizar mais pessoas para a causa
Foto: Fabiane de Paula

Jailma Leal recebeu informações mentirosas de que doadores de órgãos, ao precisarem de atendimento hospitalar, poderiam ficar sem auxílio médico para preservar a vida.

“Quando eu fui tirar minha identidade, a moça perguntou se eu queria ser doadora de órgãos e eu tinha ouvido falar que abreviavam a morte da pessoa no hospital. Aquilo ficou na minha cabeça e eu disse não”, lembra.

Em alguns países modelo, os órgãos são doados automaticamente e a medida contribui para zerar filas de transplantes, como acrescenta Elodie Hyppolito.

“A Espanha é o país que tem um melhor índice de doação, porque lá é o contrário da gente: toda pessoa falecida é doadora, exceto as que se manifestem contrárias e tem de deixar isso num documento”.

Campanha Doe de Coração 2022

Esse ano acontece a 20ª campanha Doe de Coração, com lançamento no dia 5 de setembro -, iniciativa da Fundação Edson Queiroz, mantenedora da Universidade de Fortaleza, que desenvolve ações para informar, conscientizar e mobilizar as pessoas sobre a importância de ser doador de órgãos e tecidos.

Serão desenvolvidas atividades com a participação de profissionais da saúde para debates sobre os processos da doação de órgãos.

Palestras e formações reúnem profissionais da saúde durante programação
Legenda: Palestras e formações reúnem profissionais da saúde durante programação
Foto: Thiago Gadelha

Confira a programação

  • Lançamento da Doe de Coração 2022

Data: 5 de setembro de 2022 (segunda-feira)

Horário: 9h30

Local: Auditório da Biblioteca Central da Unifor - Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz

  • Palestra: A situação dos transplantes no Ceará pós-pandemia da Covid-19

Palestrante: Dra. Eliana Barbosa, Coordenadora da Central Estadual de Transplantes do Ceará

Data: 5 de setembro de 2022

Horário: 9h30

Local: Auditório da Biblioteca Central da Unifor

  • Palestra: O papel da enfermagem no pré e pós-operatório de transplantados

Palestrante: Dra. Mônica Studart, Coordenadora da Residência Multiprofissional em Transplantes do Hospital Geral de Fortaleza (HGF)

Data: 14 de setembro de 2022

Horário: 9h30

Local: Videoteca do Centro de Convivência

  • Palestra: O contexto do transplante hepático no Ceará: realidade e desafios

Palestrante: Dra. Ivelise Brasil, Médica no Hospital Geral de Fortaleza (HGF)

Data: 20 de setembro de 2022

Horário: 9h30

Local: Auditório A-4 (Bloco da Pós-Unifor)

  • Palestra: Os desafios do transplante pediátrico pós-pandemia da Covid-19

Palestrante: Dra. Denissa Mesquita, Médica-Cirurgiã do Setor de Transplantes do Hospital Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará (UFC), e do Hospital Albert Sabin

Data: 27 de setembro de 2022

Horário: 9h30

Local: Auditório do Bloco H

  • Palestra: Os efeitos das vacinas contra Covid-19 nos transplantados

Palestrante: Dra. Tainá Veras de Sandes Freitas, Médica Nefrologista do Serviço de Transplante Renal do Hospital Geral de Fortaleza (HGF)

Data: 29 de setembro de 2022

Horário: 9h30

Local: Auditório A-4 (Bloco da Pós-Unifor)



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