Alunos da rede pública do CE criam água sanitária verde, app contra violência e sensor de vazamento

Estudantes levaram projetos para feira nacional em Brasília em parceria com o Ministério da Educação.

Escrito por Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
11 de Outubro de 2025 - 09:00
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Legenda: Alunos do Ceará apresentaram projetos para outros estudantes, professores e pesquisadores de todo o Brasil.
Foto: Nícolas Paulino
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Cachorros-robôs, protótipos de carros, hortas vivas e alimentos feitos com bioconservantes. Nos últimos dias, a Arena BRB Mané Garrincha, em Brasília, foi passarela para 400 projetos desenvolvidos por unidades de ensino de todo o país e apresentados na 5ª edição da Semana Nacional da Educação Profissional e Tecnológica, promovida pelo Ministério da Educação (MEC).

A rede pública do Ceará esteve presente na mostra com três projetos inovadores de Escolas de Educação Profissional (EEPs) geridas pela Secretaria da Educação (Seduc), do Governo do Estado. Em comum, a busca por soluções para problemas reais que afetam o cotidiano de milhares de cearenses.

Do centro de Russas, mais especificamente da EEP Jeová Costa Lima, surgiu o aplicativo “Alert Lily”, uma ferramenta para o enfrentamento à violência contra a mulher. Ao pressionar um botão digital no celular, uma potencial vítima envia sua localização via GPS para um contato de confiança.

Botão acionado por possível vítima agredida (à esquerda) envia coordenadas de localização para contato de confiança (à direita).
Legenda: Botão acionado por possível vítima agredida (à esquerda) envia coordenadas de localização para contato de confiança (à direita).
Foto: Nícolas Paulino

O projeto foi desenvolvido por uma equipe totalmente de alunas mulheres, dentre as quais Maria Eduarda Cavalcante e Maryana de Freitas. Elas estudam Desenvolvimento de Sistemas e tiveram preocupação com a onda crescente de feminicídios e agressões contra a população feminina.

“Acho que saber que o aplicativo foi criado por pessoas que sabem o que você passa dá um conforto, uma segurança”, afirma Maria Eduarda. Maryana complementa que a ferramenta também exibe números úteis, como Polícia Militar e Corpo de Bombeiros, para uso em casos de emergência.

As estudantes seguem aprimorando as funcionalidades e buscam, no futuro, implementar tanto a localização em tempo real quanto a criação de um botão físico, que poderá ser escondido, com a mesma função do aplicativo.

O professor orientador do trabalho, Felipe Pitombeira, se orgulha do empenho das alunas. “Cada linha de código foi escrita por elas. Foi tudo do zero, viraram noites fazendo, pesquisaram e resolveram. Escola pública de qualidade consegue fazer isso: ver um problema social, como o feminicídio, e pensar em uma solução”, ressalta.

Professor Felipe Pitombeira e alunas Maria Eduarda e Maryana apresentaram aplicativo Alert Lily.
Legenda: Professor Felipe Pitombeira e alunas Maria Eduarda e Maryana apresentaram aplicativo Alert Lily.
Foto: Nícolas Paulino

Consumo de água por compartimento

Detectar vazamentos de água dentro de residências e outros prédios, a exemplo da própria unidade de ensino onde estudam, motivou alunos de Desenvolvimento de Sistemas da EEP Adolfo Ferreira de Sousa, em Redenção. Eles desenvolveram o FlowMeter, um sistema de monitoramento de consumo de água de baixo custo.

Funciona assim: por meio de sensores instalados em cada cômodo da edificação, é possível medir o uso diário de água por compartimento. Um aplicativo ligado à internet faz a leitura em tempo real e atualiza a medição na palma da mão.

Aplicativo FlowMeter analisa fluxo de água a partir de cada cômodo de um prédio.
Legenda: Aplicativo FlowMeter analisa fluxo de água a partir de cada cômodo de um prédio.
Foto: Nícolas Paulino

Apoiados pelo professor Alex Soares, os estudantes Matheus Jacó e João Marllon apresentaram o trabalho em Brasília. “Um problema recorrente que afeta o mundo todo é o desperdício de água, por isso queremos que as pessoas tomem ciência do tanto que estão consumindo e desperdiçando”, destaca Matheus.

Ele explica que, diferente da medição normal, que engloba toda a construção, o FlowMeter permite analisar minuciosamente cada espaço e, ainda, gerar alertas caso haja vazamentos ou o usuário ultrapasse o consumo normal.

“Na hora que a soma passar a meta, o sensor manda um alô e você recebe um e-mail imediatamente com dicas de economia. Também tem um botão que permite abrir ou fechar o registro de água porque, se realmente tiver um vazamento, isso evita alagamento. Depois de ajeitar, posso religar e liberar”, detalha Matheus.

Segundo os estudantes, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) já sinalizou interesse em dialogar sobre o projeto.

Alunos Matheus Jacó e João Marllon apresentaram aplicativo na Arena BRB Mané Garrincha, em Brasília.
Legenda: Alunos Matheus Jacó e João Marllon apresentaram aplicativo na Arena BRB Mané Garrincha, em Brasília.
Foto: Nícolas Paulino

Alvejante que não mancha

A terceira iniciativa foi a Água Sanitária Verde (ASV), desenvolvida na EEP Ícaro de Sousa Moreira, no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Lara Gomes e Júlia Barbosa, orientadas pelo professor de Química Francis dos Santos, desenvolveram uma substância que age como água sanitária, mas apresenta vantagens:

  • não mancha ou desbota roupas brancas ou coloridas
  • não possui odor forte
  • não apresenta reações alérgicas, como dermatites
  • é antibactericida e saneante
  • pode ser produzida a baixo custo
  • economiza energia na fabricação

Conforme as alunas, a produção de 1 litro de água sanitária comum consome em torno de 2200W, equivalente a 50% do consumo diário de uma casa com duas pessoas. Já a ASV consome apenas de 30W a 60W.

Para isso, elas utilizam materiais básicos: garrafas plásticas como reatores, eletrodos com presença de grafite de lapiseira e um carregador de celular. Além disso, produzem um bioativo com plantas comuns, como um pé de jambo do pátio da escola.

Água sanitária verde foi produzida em escola estadual no bairro Bom Jardim, em Fortaleza.
Legenda: Água sanitária verde foi produzida em escola estadual no bairro Bom Jardim, em Fortaleza.
Foto: Nícolas Paulino

Em contato com uma solução de água e sal, o bioativo acelera a produção da ASV, processo de cerca de 1 hora. O resultado é uma substância com bom teor de hipoclorito de sódio (cloro) e que age da mesma forma que um alvejante comprado em supermercados.

“Criamos a ASV com o objetivo reduzir o grande gasto energético, criar práticas mais sustentáveis e influenciar os jovens da nossa escola a ter ações simples e acessíveis”, explica Lara.

“A ASV não desbota porque a água sanitária convencional tem alta concentração de hidróxidos que reagem com a anilina, um componente importante do corante das nossas roupas. A nossa tem hidróxidos, mas em concentração bem inferior”, confirma Júlia.

O próximo passo da pesquisa é manter as propriedades do produto, mas transformando-o em gel. Em pesquisa com 120 pessoas da escola, as alunas encontraram alta adesão à ASV, e 80% dos respondentes afirmaram que se disporiam a fazer o material em casa. 

Semana Tecnológica

Com o tema “Juventudes que inovam, Brasil que avança”, a feira em Brasília buscou divulgar a Educação Profissional e Tecnológica (EPT) e reconhecer seu crescimento por meio da integração de estudantes e profissionais, compartilhamento de projetos e pesquisas desenvolvidas pelas instituições.

Nos corredores, foi possível conhecer iniciativas sobre robótica, gastronomia, foguetes, jogos e exposições interativas, inteligência artificial, aplicativos, tecnologias inclusivas e sustentabilidade.

Escolas representantes do Estado na mostra são vinculadas à Secretaria da Educação do Ceará.
Legenda: Escolas representantes do Estado na mostra são vinculadas à Secretaria da Educação do Ceará.
Foto: Nícolas Paulino

Para o ministro da Educação, Camilo Santana, a mostra revela o que há de “mais moderno” e “a força e a pujança das nossas instituições”. Ele reforçou que o Governo Federal tem como uma das principais estratégias ampliar as matrículas de ensino técnico e profissionalizante no Brasil, concomitante com o Ensino Médio.

Atualmente, há 104 novos Institutos Federais em instalação, e 46 deles estão previstos para iniciar as atividades já em 2026. No Ceará, haverá dois novos campi do IFCE em Fortaleza e mais quatro nas cidades de Cascavel, Mauriti, Campos Sales e Lavras da Mangabeira.

*O repórter viajou a Brasília a convite do MEC.

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